Amor (pt.2): O Gato e o Novelo/Contrastes

Obs: esqueci de citar no post anterior um fato muito importante: o amor não se dá somente por pessoas. Você pode “amar” (criar apego por) animais, objetos, hobbies, hábitos. Pense nisso.

Continuando o post de ontem, vou falar sobre os contrastes que nos levam a querer algo e seguir adiante. Mais precisamente, o contraste entre desejar algo, e não ter o que é desejado. Vou exemplificar isto com um conto, que não serve só para o amor ou relacionamento, mas para a vida em geral.

O conto d’O Gato e o Novelo de Lã não é tão novo, na verdade é mais uma metáfora, uma análise do senso comum, do que um conto em si. Algo que todo mundo vê, mas não analisa, não percebe o real significado.

Um gato está tranquilamente descansando, em sua vida morna e calma. Não existem novidades, não existem motivos para se mover ou fazer algo novo. A vida é monótona, a rotina é a mesma. De repente surge algo, ele avista um novelo de lã vermelho, grande, vibrante, puxando seu olhar, balançando de mãos desconhecidas. O novelo o atrai, cada vez mais, até chegar ao ponto onde ele não pode mais evitar. O gato se levanta e começa a caçar seu objeto de desejo, mas quanto mais ele se aproxima, mais o novelo se afasta. A pessoa que o segura, brinca e se diverte com a tentativa cada vez mais frenética do gato de agarrar seu novelo, afastando o novelo conforme o pobre felino se esforça. Em um último pulo, ele consegue seu prêmio. Deita, gira, rola, brinca. Mas são apenas 5 minutos, antes de enjoar e esquecer-se do novelo. Era mais divertido quando ele se movia, e a caçada era constante.

O gato somos nós, pessoas comuns, em nossa rotina de todo dia, fazendo coisas monótonas esperando que algo nos livre do comum e sempre igual mundo. O novelo é a novidade, aquilo que nos motiva a ir em frente e lutar por algo. Pode ser uma pessoa interessante, uma nova oportunidade de trabalho, um sonho, uma necessidade. Este processo se dá através de etapas: aproximação (quando vemos o novelo), atração (quando nos interessamos por ele) e sedução (quando estamos engajados na caçada do novelo, procurando a realização ao alcançá-lo).

Se o gato estivesse já entretido com outro objeto, talvez não notasse a aparição do novelo (sem aproximação) ou talvez até notasse, mas não se sentiria interessado (com aproximação, mas sem atração). Quando este outro objeto se tornasse monótono, aí sim, ele passaria a prestar atenção ao novelo (com aproximação e atração).

Quando falamos em termos de sonhos, empregos, carreira, realização, o novelo é estático. Ele está lá, mas você precisa ser bom o suficiente para alcançá-lo. Quando o alcança, talvez se sinta frustrado, vendo que, afinal, não era aquilo tudo que você esperava (mas bem, pelo menos você está melhor do que estava antes!) Com isso, o gato se fixa em novos novelos (maiores realizações).

Quando falamos de amor, as coisas mudam. O novelo se move, e você é uma isca. Não basta ser bom, é preciso ser cativante, esperto, pois não é mais uma caçada, é um jogo. Você se aproxima, o novelo se afasta, e se torna mais especial. Quando lidamos com pessoas, estamos lidando com sentimentos e vontades. Ao ceder às vontades e sentimentos, você se torna afável, bom, cativante, mas lentamente se torna monótono, até o ponto onde você não é mais interessante nem necessário, e é descartado. O gato terminou de brincar.

Quando você NÃO cede a vontade, ou impões seus próprios sentimentos e vontades, você está puxando o novelo, fazendo com que a outra pessoa ceda, venha atrás. Mas é necessário ficar atento, por que brincar demais cansa, e o gato pode simplesmente desistir de pegar o novelo, e procurar algo diferente.

São estes CONTRASTES entre o que você quer e o que você tem, onde você cede e onde você se impões, que o movem, esse jogo frenético de ir atrás de sempre mais. Esta história pode se desdobrar de várias formas, levando em consideração que os sentimentos e as condições de cada pessoa são diferentes, mas é interessante sempre manter em mente, que contrastes são necessários, diferenças, correr atrás de algo. Se sua vida está sem nenhuma novidade, algo está errado. Um rio plano não corre, mas um rio de montanha está sempre em movimento.

 

Apesar da confusão com metáforas, tempos verbais e explicações difusas, espero que tenham compreendido o que quis dizer.

Poema recomendado: Roll the Dice – Charles Bukowski

Amor (pt.1): Droga e Vício

Dia dos namorados, dia dos drogados. Sério, amor é uma droga.

Não, não, não pense que sou ressentido com algum caso amoroso do passado, mas deixe-me explicar: o amor é um vício, e como um medicamento ou uma droga, causa a dependência.

O amor tem efeitos positivos, na maioria das vezes, sobre nós. Fisicamente e psicologicamente falando. O amor, ou o sentimento de ser amado e correspondido (compreendido, talvez?) acarreta na liberação de serotoninas e endorfinas em nosso cérebro, o que nos deixa mais felizes, otimistas, relaxados e calmos (serotonina) além de aliviar a dor e aumentar nossas resistências e defesas imunológicas (endorfinas). E o que acontece? Claro, dependência!

Para uma pessoa que não é naturalmente confiante e otimista, o amor faz maravilhas, elevando-a a um patamar onde nunca esteve. O problema é: e quando a maravilha acaba, se vai? O amor é retirado, e a pessoa perde seu estímulo de serotoninas e endorfinas, e acaba se tornando algo como um viciado em reabilitação, sentindo pavor, medo, solidão, certas vezes até dores de cabeça, fraquezas, enjôos e distúrbios de saúde e alimentares. Do luxo, ao lixo.

Na verdade, se formos pensar desta forma, o amor foi a primeira droga, a “natural”. E SIM, existem pessoas viciadas em amor, que se apaixonam toda hora por alguém diferente. Não é uma escolha, é um hábito, uma necessidade, um distúrbio. Elas já se apaixonaram tanto, que precisam continuar alimentando o vício, toda hora uma nova paixão. Ficar com alguém mais do que umas meras semanas é um tormento, mas elas não podem evitar.

As drogas sintéticas (ecstasy, LSD) tem sua fama justamente por mimetizar o efeito do amor, liberando cargas massivas de serotoninas e endorfinas, causando a “paz e amor” geral nos salões e raves onde são vendidas.

Pois é né, feliz dia dos drogados aí. E parabéns pra quem tem alguém por quem se drogar.

Mas tarde conto uma historinha chamada “O gato e o novelo de lã” que ilustra bem como o amor (e praticamente tudo na vida) funciona: contrastes.

“Encontre o que você ama e deixe isso te matar” – Charles Bukowski